Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Um olhar argentino sobre…


Ensaio sobre a cegueira

 

    Mais uma vez, numa sociedade onde "quem tem olhos em terra de cegos é rei", uma obra literária faz-nos pensar e reflectir sobre a realidade das nossas vidas,  ao ponto de termos vergonha daquilo que somos e daquilo que a nossa raça tem atingido. Ensaio sobre a cegueira é um livro que consegue tocar no nosso ponto mais fraco: até onde somos capazes de chegar em situações extremas? Onde acaba (e onde começa)  a atrocidade do ser humano?

   Embora seja um tema de que pouca gente gosta de falar, trata-se de uma reflexão que precisava de ser feita.  Ter lido o livro, para mim, foi libertar uma necessidade inconsciente de abrir os olhos, de começar a reparar em vez de olhar.

  Uma coisa é certa:  não é um livro para qualquer pessoa. Só quem estiver disposto a pensar nas reacções que pode ter a espécie humana em situações extremas é capaz de o compreender. Será que realmente podemos chegar a tal ponto de destruição?

   Na minha opinião, Saramago tenta deixar-nos uma lição universal, leva-nos a perceber que somos muito diferentes uns dos outros mas, ao mesmo tempo, muito dependentes e frágeis. Como é possível uma sociedade "civilizada e organizada" que atingiu níveis de desenvolvimento tecnológico outrora impensáveis transformar-se tanto com a perda de um dos cinco sentidos? Um sentido que é, diga-se,  o mais importante e, ao faltar, torna-se ainda mais. Lá está mais uma vez:  valorizamos mais as coisas quando as perdemos. Naquela sociedade, só havia uma coisa que era comum a todos: a cegueira. Uma cegueira que, no entanto, não atingiu a mulher do médico, mas que a fez, a ela e aos seus colegas, viver uma situação em que não havia nomes, nem cores de pele, nem nacionalidades, nem profissões ou passados. Só havia um presente - a cegueira - e um futuro que parecia longe e inimaginável.

   Cegos de cegueira branca, uma cegueira esquisita que vem para os ensinar a esquecerem todo e qualquer preconceito. Não reconhece relações pessoais, anéis de casais, dignidades, identidades e vergonhas. Não existem antigos valores, normas, leis, nada do que tinha sido ou existido estava presente. Só existem as novas leis do instinto, da sobrevivência, do “manda o mais forte”. E não interessa se estudou nove anos de Medicina ou se nem sequer acabou o décimo ano do secundário. Tanto faz que tenha dez anéis de ouro como os tenha de papel. O mesmo se passa com os rituais religiosos. Se ia à igreja todas as semanas ou se nunca acreditou em Deus, o destino será igual para todos. E, outra vez, a igreja não deixa de nos surpreender. Até nas situações mais extremas vai tentar cobrir os olhos de quem não merece ver a verdade, e, por outro lado, convencer a quem vê de que é tudo obra de Deus e é nele que devemos acreditar.

   E agora pergunto-me: será que tudo isto não é uma análise da sociedade dos nossos dias, embora a cegueira não seja branca? Podíamos pensar numa cegueira onde as cores existem, onde todos conseguem ver mas ninguém reparar naquilo que está a ver. Pode comparar-se com a sociedade universal, mundial, contemporânea. De alguma maneira, embora consigamos ver as cores, estamos cegos, porque não reparamos naquilo que está à nossa volta e conseguimos ignorá-lo. Mas também estão aquelas pessoas que, como a mulher do médico, não conseguem ignorar aquilo que os olhos têm para lhes mostrar. E, por esse motivo, sofrem, porque vêem o que os outros ignoram, aquilo a que os outros conseguem habituar-se e serem felizes. Porque com olhos que mostram a realidade é difícil ignorá-la e ser feliz, ao ponto de desejar, por vezes, não ter olhos também.   

 

 

Valentina Rata Zelaya

 



publicado por Contador às 17:24
mais sobre mim
Junho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
23
25

26
27
28
29
30


arquivos
2011

pesquisar neste blog
 
blogs SAPO